A Fila do Pão na Mooca e o Sotaque que Sobreviveu aos Séculos — Crônica Urbana 2014
Na Mooca, o 'belo' não é adjetivo: é pontuação de frase.
- Fundamentação sólida em fontes científicas revisadas por pares;
- Recomendações práticas e acionáveis para o leitor e o profissional;
- Compromisso com a ética, a clareza e a transparência em saúde.
A padaria da Rua Javari abria as portas com o aroma inconfundível de fermento fresco e café recém-coado em coador de pano.
Seu Carmine, oitenta e dois anos de sola de sapato gasta no bairro dos operários têxteis, batia o nó do dedo no balcão de vidro.
— Ô meu, me dá quatro filão bem cascudo. Mas cascudo mesmo, não me vem com essa massa frouxa de condomínio moderno!
O balconista, jovem bisneto de migrantes alagoanos, sorriu com aquela cumplicidade que une a Mooca além das origens:
— Tá crocante que parece telha colonial, seu Carmine.
Sentaram-se à mesa de fórmica para comer cannoli recheado com ricota fresca e raspas de limão siciliano.
Ali, a greve geral operária de 1917 parecia ter acontecido na semana passada.
As fábricas fecharam, os teares viraram museu, os galpões viraram prédios residenciais com nomes em francês.
Mas o sotaque cantado, o gesto das pontas dos dedos unidos balançando no ar e a paixão inegociável pelo Juventus da Mooca continuavam de pé, impassíveis como a muralha do Vaticano.
Cristiano Ricardo — Escritor
Crônicas Brasileiras & Flagrantes do Cotidiano · Publicado em 22/02/2014 às 05:35.
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